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Olá, pessoas.
Há dias estou pensando em escrever sobre esse tema, mas ainda não tinha tido tempo para sentar e escrever com calma. O assunto é, de certa forma, polêmico.
Durante a gestação o momento mais aguardado _ e o mais temido_ é o parto. A expectativa de conhecer nosso filho é imensa, mas o medo de alguma coisa dar errado, às vezes, é maior ainda.
Principalmente porque, durante a gestação, aparece gente até debaixo da terra para contar alguma coisa ruim que aconteceu com uma amiga, vizinha, prima, etc. Sem contar as notícias horríveis que aparecem na televisão.
Enfim, de um jeito ou de outro, acabamos tendo o bebê. E, se o bebê e a mãe estão bem, ninguém fala nada sobre o parto. E o assunto, em teoria, acaba sendo esquecido. Afinal, o mais importante é o bebê e ele estando ali, nada mais importa. Não exatamente, para a mulher que viveu a experiência do parto ou cesárea é extremamente importante falar sobre o assunto e entender o que realmente aconteceu...
A maioria das mulheres não sabem muito bem como acontece um parto. Se baseiam em cenas de filmes ou novelas que nem de longe refletem a realidade. E, por não saber o que espera, não sabem como agir na hora P. A mulher desejou tanto um parto normal e depois de horas em trabalho de parto acabou passando por uma cesárea. Ou então, até teve um parto normal, mas teve uma episiotomia ou a médica subiu em cima da barriga dela ou alguma coisa do tipo. Enfim, a mulher se sente frustrada. Se sente incapaz de parir, no caso de cesárea, ou fica traumatizada com o parto "normal". Muitas saem do hospital com a certeza de nunca mais ter filhos para não ter que passar por essa experiência novamente. Conhecendo o sistema obstétrico brasileiro, sabemos que a culpa disso tudo está no despreparo dos médicos para assistir um parto e a violência com que as mulheres são tratadas, seja no SUS ou particular.
Por causa dessa frustração com o parto um grande número de mulheres tem buscado informação e optado por um parto humanizado em uma segunda (ou terceira...) gestação. Elas pesquisam, se informam bastante, participam de grupos de gestantes, leem dezenas de relatos e assistem dezenas de vídeos de parto... Ops...Agora chegou a parte polêmica. Mas vamos com calma...
Bem, como todos sabem, na minha gestação pesquisei muito li e reli relatos de parto, assisti e reassisti vários vídeos de parto. Sem contar as centenas de fotos ma-ra-vi-lho-sas! E os relatos nos blogs e páginas do face: " Fulano pariu depois de x horas em tal lugar, sem nenhuma laceração. " "Fulana teve parto natural na banheira do hospital x depois de ter passado por uma cesárea." E outras tantas frases do tipo.Tudo isso vai criando um glamour em torno do parto e a gente já começa a imaginar o parto como se fosse o nosso casamento. Vai dar tempo de passar maquiagem. Vou contratar fulano para fazer as fotos. Vou fazer a playlist do parto com essas e essa música. Vou comprar vela assim , incenso assado. Vou usar esse lençol. Esse topper. e por aí vai. Querendo ou não, pelo mal hábito da criação feminina que começa com a idealização do príncipe encantado, acabamos também idealizando o parto.
Nos relatosescritos há sim os pormenores do parto com todos os senões, mas nas fotos e vídeos temos "o privilégio" da edição. Os vídeos, por exemplo, mostram só o período expulsivo. Sendo que o período crítico e o que acontece antes de chegar lá. O período expulsivo, na maioria dos casos, é a parte boa, é a linha de chegada. Os vídeos não mostram a longa trajetória. Os vídeos não mostram você evacuando na frente da equipe. A doula limpando a sua bunda. Não mostra você vomitando. Não mostra que um monte de desconhecidos ficaram várias horas vendo a sua vagina inchada. Não mostram que você gritou horrores. Pensou várias vezes em desistir. Não mostra a cara de cansado de todo mundo porque aquilo já tava demorando demais, indo madrugada a fora e ninguém comeu direito. Depois que o bebê nasce ninguém mostra a expulsão da placenta ou a enfermeira costurando a laceração. Nem as fotos de cesárea também mostram sua barriga aberta, a sangreira desatada e o seu útero exposto. Claro que não! Quem quer ver isso? Claro que ninguém quer ver isso! Sem contar que para incentivar as mulheres a quererem parir, mostrar que é possível, que é lindo ninguém vai ficar mostrando as coisas ruins. A propaganda sempre mostra a parte boa.
Só que isso, assim como os filmes de comédia romântica, pode criar na gente um sentimento besta e que toda mulher sabe bem o que é: a quebra da expectativa ou, em outras palavras, frustração.
Eu, assim que o Vladimir nasceu, me senti uma leoa. Uma mulher forte. Algumas pessoas me perguntaram se eu fiquei triste porque não tinha parido na banheira. Não, não fiquei. Eu sabia que minha casa era pequena e a logística da banheira era muito trabalhosa. Então não criei expectativa nenhuma em relação a isso. Tanto que rapidinho desisti da banheira e fui pro chuveiro. O que me deixou frustrada foi ter tido laceração. Fiquei me sentido mal um tempão por causa disso, pensando que o meu parto poderia ter sido perfeito se não fosse a laceração. E fiquei remoendo, se eu tivesse isso e isso eu não teria lacerado. Tudo uma grande bobagem! Agora, depois de saber com mais detalhes sobre vários partos cujas fotos e vídeos faziam parecer que tudo tinha sido perfeito e ter feito o curso de doula, posso afirmar com convicção: meu parto foi perfeito do jeito que foi. Ele foi simples, como o parto deve ser, sem nenhuma complicação e sem nenhum glamour, apenas um parto. E isso não faz de mim nem mais nem menos mãe.
E o que eu quero dizer com isso tudo?
Tudo tem seu lado positivo e o negativo. Divulgar os vídeos, fotos e relatos de parto humanizado é extremamente importante para emponderar as mulheres e incentivá-las a parir e mostrar são capazes! No entanto, como tantas outras coisas relativas ao feminino. Pode segregar e gerar um sentimento de culpa e frustração. Acaba gerando os grupinhos: a que teve parto normal, a que teve parto natural, a que teve cesárea, " a menas" e " a índia". Isso tudo serve para desunir as mulheres. Não precisamos disso. A sociedade patriarcal já faz isso com a gente o tempo todo! As mulheres não precisam de mais uma coisa para desuni-las e fazerem-nas se sentirem fracassadas. Isso já tem aos montes!
Precisamos falar sobre isso. Apesar de todas as milhares de boas intenções da luta pelo parto humanizado, o seu marketing cheio de glamour ao invés de acolher, pode segregar.
Eu acredito que, se a mulher estava bem informada e bem assistida, ela teve o parto (ou cesárea) que precisava e/ou podia ter naquele momento.
Precisamos lutar para que todas as mulheres tenham informação e assistência de qualidade para que todas tenham um parto simples e, o mais importante, RESPEITOSO. E não criar mais um mercado quem tem dinheiro tem vantagens e quem não tem se contenta com pouco.
Amiga, não existe parto ideal. Assim como não existe maternidade ideal. Nada nessa vida é o ideal.
Existe o real. E apesar de o real não ser como idealizamos, ele pode ser bem melhor do que imaginamos!